Esporte

Ferida aberta: há 40 anos, Atlético-MG era eliminado na Libertadores em jogo manchado de expulsões

Cenas de Flamengo 0x0 Atlético, em 1981 — Foto: Reprodução/Arquivo/Biblioteca Pública de Minas Gerais

Atuação do árbitro José Roberto Wright jamais foi esquecida (e perdoada) pelo clube; 21 de agosto de 1981, em jogo desempate, o Galo teve cinco atletas expulsos contra o Flamengo

Um jogo que nunca acabou. Ou terminou muito antes do esperado, com dois placares, cinco expulsões, 71 mil torcedores furiosos, 25 minutos de paralisação e uma lembrança amarga para o Atlético-MG. Há exatos 40 anos, o Galo era eliminado da Libertadores em jogo desempate contra o Flamengo, no Serra Dourada, com o árbitro José Roberto Wright sendo protagonista em um duelo recheado de craques.

Foi justamente um embate dos dois ídolos que acendeu a fagulha da confusão. Aos 33′ do 1º tempo, Reinaldo se joga nas pernas de Zico, no campo de defesa do Flamengo. Cartão vermelho direto. Na prática, a partida acabou ali, mas ficou imortal na rivalidade entre os clubes. No placar, 0x0, mas vitória dos Rubro-Negros por W.O.

O Flamengo passaria para a penúltima fase, e seria campeão da América. Algo que o Galo só conseguiria 32 anos depois.

O pré-jogo

Flamengo e Atlético foram alocados no Grupo 3 da Libertadores, numa época de chaveamento por país. O grupo era completado por Cerro Porteño e Olimpia. Os jogos foram disputados entre 3 de julho e 14 de agosto.

Galo e Flamengo fizeram a partida inaugural, com empate de 2 a 2 no Mineirão (com Wright no comando). O Galo fecharia sua participação em 7 de agosto, com novo empate de igual placar no Maracanã. No meio tempo, venceu Cerro Poteño e Olimpia uma vez, cada, e teve dois empates contra os rivais paraguaios. Chegou com 8 pontos, e líder. Só que o Flamengo ainda tinha dois jogos, ambos em Assunção.

Para o Galo, bastava o time Rubro-Negro não vencer fora de casa, nas duas rodadas restantes na qual os mineiros descansavam. O Fla tinha 5 pontos, mas venceu o Cerro Porteño e empatou com o Olimpia. Resultado? Os dois times brasileiros ficaram com campanhas praticamente idênticas, com o campeão brasileiro de 1980 vencendo no saldo de gols (5×2).

No regulamento, era preciso um jogo desempate entre Atlético e Flamengo. Com o Rubro-Negro tendo a vantagem de passar de fase em caso de empate após 90 minutos e prorrogação. Ao Galo, só interessava vencer.

Por quê o Serra Dourada?

Atlético e Flamengo precisavam entrar num consenso para eleger o palco da partida única e decisiva. Houve até a proposta de dois jogos, um no Mineirão, outro no Maracanã. Rejeitada. Cada lado queria levar a partida para casa. Então, o martelo foi batido pela CSAF, a antiga sigla da Conmebol. Teófilo Salinas, então presidente, mandou fax para a CBF, elegendo o Serra Dourada.

O estádio em Goiânia era considerado de ótimo gramado, e tinha dimensões incrivelmente gigantescas diante dos campos padronizados dos novos tempos, em 105x68m. O Jornal dos Sports, em 19 de agosto, dois dias antes, noticiava a escolha do Serra Dourada, que desagradava o Atlético, e agradava o Flamengo.

“Não precisamos de favor de ninguém. Temos um grande time e condições de vencer o Flamengo em qualquer lugar, seja no Serra Dourada, ou até mesmo no Estádio Mário Filho” (Elias Kalil, após reunião na CBF que decidiu o local do jogo)

José Roberto Wright

Acostumado a apitar decisões do Campeonato Brasileiro, o árbitro carioca foi indicado pela Confederação Sul-Americana. E gerou nariz torto do Atlético, ainda segundo o Jornal dos Sports. Wright apitava pela Federação Gaúcha, mas era nascido no Rio de Janeiro. Elias Kalil, presidente do Galo, reclamava de falta de neutralidade.

– Quando indica árbitros para dirigir partidas entre clubes do mesmo país, a Confederação não se preocupa com neutralidade, escalando aqueles que considera em condições de dirigir o jogo sem problemas – afirmou Abílio de Almeida, representante da Conmebol.

Wright foi auxiliado por Oscar Scolfaro e Romualdo Arpi Filho (este, juiz da final da Copa de 1986). Ainda segundo o Jornal dos Sports, alguns órgãos da imprensa mineira aprovaram a escalação do árbitro, que tinha muito prestígio nacional.

O jogo

Atlético e Flamengo viajaram no mesmo avião para Goiânia. O voo da Varig deixou o Rio de Janeiro, fez escala em Belo Horizonte, e depois pousou no Centro-Oeste. Os jogadores se davam bem, dividiam convocações da seleção brasileira. Um dia antes da partida, Telê Santana convocou Cerezo, Éder, Júnior e Zico para jogar contra o Chile, na quarta-feira seguinte. Empolgação dos dois lados.

Havia possibilidade até de das duas delegações se hospedarem no mesmo hotel. Entretanto, de acordo com o Estado de Minas, a direção do Galo reservou primeiro a opção que melhor convinha para ambos, e o Flamengo decidiu ir para outro alojamento.

Com 71,5 mil pagantes, dando uma renda de 13 milhões de cruzeiros, o que seria um espetáculo de “futebol-arte” virou um cortejo fúnebre de 37 minutos, 0x0 no placar, e cinco expulsões do lado do Atlético.

Tudo começou aos 33 minutos de jogo. Cerezo, Palhinha, Éder e Vaguinho já estavam amarelados por Wright, que também advertiu Mozer, do Flamengo. Então, no campo de defesa, Zico sofreu uma falta por trás de Reinaldo. Com os olhos de 2021, a entrada é dura. Mas, para 1981, na repercussão de jornais, foi “falta normalíssima”, como escreveu a Revista Placar. Então, o melhor jogador do Galo, artilheiro, foi expulso.

– Em um jogo tumultuado, o juiz José Roberto Wright demonstrou um nervosismo inexplicável e totalmente descontrolado, acabando com o bom futebol que Atlético e Flamengo jogavam. (Estado de Minas)

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Alvaro Vilaça

Alvaro Vilaça

Jornalista, radialista, âncora do programa Tempo Esportivo na TV Sete Lagoas e diretor de programação da Rádio Eldorado AM1300

Redação Redação

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Arnaldo Martins

Arnaldo Martins

Colunista do Hoje Cidade a mais de 20 anos, formado em Assistente de Administração de Empresas, funcionário público.

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